Dr. Emílio Eliseu de Maia

Edição: Phablo Monteiro  Homenagem

 

PÉTALAS ESPARSAS

O Segredo do Amor

Se amas alguém que é teu enlevo e encanto,

Vida e alegria do teu coração,

Zela por esse teu afeto quanto

Pela tua puríssima emoção.  

Não consintas jamais que ele se iguale

Às afeições comuns da humanidade.

Guarda bem na memória: o amor só vale

Quando é um produto da sinceridade.  

Sempre que é puro todo afeto é um bem

E o segredo do amor em si resume:

Pouco valor teria a flor também

Se não fosse a pureza do perfume.

(Emílio de Maia)

Emílio Eliseu de Maia, nasceu no Engenho Patrocínio, na cidade de Atalaia, no dia 25 de junho de 1906. É filho de Alfredo de Farias Melo, conhecido como Alfredo de Maia, e Regina Clarc Accioly de Maia. Seu pai foi deputado federal entre 1914 a 1918.

Emílio mostrava nas suas poesias um encanto muito grande pela natureza. Escritor nato, escreveu entre outros livros “O Brasil e o drama do petróleo”, sem falar nos artigos de jornais. Estudou no Colégio Higino Belo em Maceió, onde fundou aos 14 anos o jornal O Independente. Jornalista e poeta, graduou-se pela Faculdade de Direito de Recife em 1929. Partidário da Revolução de 1930 e simpatizante da doutrina social da Igreja Católica, defendia os interesses dos usineiros nordestinos e a fabricação no Brasil do álcool automotor. Pertenceu e dirigiu por muito tempo a Congregação Mariana de Maceió que liderava movimentos literários entre os jovens. Seu nome é sempre lembrado em Clubes Literários e Biblioteca e está perpetuado em uma Escola de 1º Grau no Povoado Bittencourt.

Iniciou sua carreira política elegendo-se deputado federal por Alagoas, em outubro de 1934. Exerceu o mandato de maio de 1935 a 10 de novembro de 1937, quando todas as câmaras legislativas do país foram fechadas com a instauração do Estado Novo.

Fundador e presidente da Liga Eleitoral Católica em Alagoas e membro da Associação Alagoana de Imprensa, foi também um dos fundadores do Círculo Operário Católico de Maceió.

Casou-se com Nazira Cabral, com quem teve dois filhos.

Publicou O Brasil e o drama do petróleo (1938) e um volume de discursos parlamentares. Escreveu também artigos no jornal católico O Semeador.

Teve vida efêmera porém muito bem vivida. Faleceu na cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, no dia 13 de março de 1939, deixando inúmeras poesias que seus familiares, por ocasião da passagem dos 60 anos do falecimento do poeta, reuniram e publicaram no livro “Pétalas Esparsas”.

Sobre ele foi publicado “Emílio de Maia, um pioneiro”, em Cadernos Alagoanos (1964) e Pétalas Esparsas — poemas de Emílio de Maia (1999).

É patrono da Cadeira nº 11, da Academia Maceioense de Letras. Os poemas desta matéria foram retirados do livro Pétalas Esparsas.

Dr. Emílio de Maia por Divaldo Suruagy:

Estamos em 1937. O Brasil vive o regime ditatorial do Estado Novo. Em Palmeira dos Índios, na fazenda de seu pai, no Distrito de Cacimbinhas, Emílio de Maia se recolhe para escrever “O Brasil e o Drama do Petróleo”. Ficaram para trás o bulício da vida pública e a agitação política. Uma mesa repleta de livros é o novo campo de luta desse alagoano de escol que viveu, intensamente, as suas idéias.

“A obra política de Emílio de Maia, de tão rica de conteúdo , projetou-se ao futuro no campo das concepções mais importantes da nacionalidade”, segundo Maya Pedrosa, em Um Pioneiro, edição do Departamento Estadual de Cultura.

 Sua posição relativamente ao petróleo, ainda nos idos do fim da década de trinta, criou especulações: Seria Emílio um fanático radical de esquerda? Buscamos ainda em Maya Pedrosa a resposta a tais indagações: Nem fanático, nem visionário, nem utópico.

Emílio de Maia foi, na verdade, um democrata autêntico, que levou ao debate público, através do livro, as posições assumidas na Câmara dos Deputados. As teses que ele adotou, em relação ao petróleo, foram bandeiras nacionalistas durante muito tempo.

Tendo registrado o alheiamente do povo diante dos problemas econômicos, Emílio de Maya assinalou, no tempo certo, uma mudança de rumos. Na realidade, na sua crítica ao livro “Geografia Econômica e Social da Cana-de-Açúcar no Brasil” , de Gileno de Carli, ele testemunha: a mentalidade nova do Brasil está se fixando, de preferência, no estudo de nossos problemas econômicos.

Tendo falecido muito jovem, Emílio de Maya nos deixou um exemplo de ação política à altura de um estudioso e de um estadista, comportando-se, sempre, de forma altaneira, como o homem cuja visão se volta para os horizontes distantes do futuro.

 O sentimento elevado da política, no nosso retratado, era uma contingência genética. Afinal de contas, se tratava de um filho de Alfredo de Maia, cuja atividade nesse setor foi das mais benéficas para Alagoas. Por outro lado, sua vocação para as letras encontra continuidade na ação de seu sobrinho Maya Pedrosa.

 Entre outros pensamentos, eternos por sua sabedoria, ressalta que, nos dias de crise, o.interesse individual vale pouco.

 Referindo-se a “O Brasil e o drama do petróleo”, o Professor Medeiros Netto afirma que o mesmo é “o sacerdote, o turíbulo e o altar, onde se prestará sempre o culto à sua memória”.

 É o que estamos fazendo: prestando o culto da nossa admiração e do nosso respeito à memória desse alagoano que, na sua curta existência, soube, através dos tempos, transpor a solução de problemas do maior interesse nacional.

PERDÃO
 
Se um dia fores vítima do amor
Que te inflama o coração fremente,
Coloca-te num plano superior
À atitude comum de toda a gente.
 
Não maldigas sequer o teu amado
Nem lhe atires injúria uma só vez.
Mostras que tens o espírito elevado
Acima da injustiça que te fez.
 
Dá-lhe teu sereníssimo perdão
Sem um indício de constrangimento:
É a vitória maior de um coração
Perdoar a quem lhe causa sofrimento.
(Emílio de Maia)


DISTÂNCIA
 
Os poetas já disseram algumas vezes
Que são pequenas todas as distâncias
Quando separam dois afetos puros
Dois corações que vibram em cismas e ânsias...
 
Quando nós éramos assim também
Sempre vivemos em corpos gêmeos...
Depois, (em toda história há sempre esse depois)
Houve, por um capricho do destino
Uma grande distância entre nós dois...
(Emílio de Maia)


FELICIDADE
 
Felicidade,
onde é que você mora
que eu ando tanto a sua procura
e você nem sequer dá-me a ventura
de um encontro furtivo?...
 
Eu creio que você
é tal qual a sereia.
A gente ouve a sua voz bonita,
muito suave e atraente,
e vai seguindo, inconsciente atrás da simples ilusão...
 
Dizem-me que você faz a gente feliz,
que tem um coração que é como um abrigo
para as almas que a encontram.
Mas que não simpatiza com todo mundo,
apesar de sua bondade...
Por que é que você, Felicidade,
ainda não quis simpatizar comigo?
(Emílio de Maia)


TARDE DE INVERNO


Tarde tristonha, enevoada e fria.
Não vejo o sol brilhante declinando,
Somente as águas que, da serrania,
Turvas, velozes descem murmurando.

Que tarde triste! Assim ouvindo rente,
Passando a correnteza a soluçar,
Meu coração entristecido sente
Uma vontade imensa de chorar...

A terra inteira se lastima agora,
Vendo-me só e vendo só tristeza
Eu soluço também. E quem não chora,
Vendo chorando toda a natureza?

Se há de ser triste o meu entardecer,
Como esta tarde de prazer despida;
Oh Deus do céu! Não quero mais viver.
- Levai-me logo na manhã da vida.

 

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