Eurico Tenório de Albuquerque

Edição: Phablo Monteiro - Fonte: Radjalma Tenório  Homenagem

 

Natural de São Miguel dos Campos, nasceu no dia 26 de abril de 1917. Filho de João Tenório Cavalcante de Albuquerque e Primitiva Silveira Torres. Casa-se com Ed Portela Tenório e dessa união nascem três filhos: Marcos Paulo, Radjalma Tenório (Radinho) e Claudete Tenório, já falecida.

Era Técnico de Laboratório do antigo DENERU (Departamento Nacional de Endemias Rurais). Veio à Atalaia na década de 50 por conta de seu trabalho. Seu filho Radinho o descreve como um cientista: “De tudo o meu pai sabia um pouco”. Naquela época existia uma grande carência de médicos aqui em Atalaia. Além dos exames de rotina, Eurico Tenório era o único que realizava exames de urina. Médicos renomados em Atalaia como o Dr. Luiz Augusto e o Dr. Rômulo Toledo, além de médicos de Maceió como o Dr. Milton Hênio e Dr. Djalma Breda, sempre recomendavam os exames de fezes para detectar cistosoma, feitos por Eurico Tenório aqui em Atalaia. Isso numa época em que a estrada que ligava nossa cidade à capital ainda era de barro.

“Meu pai ficou conhecido como um dos melhores técnicos de laboratório do Brasil, pois realizou um trabalho com uma coleção de caramujos, onde uma parte se encontra hoje na casa da minha mãe e a outra foi para o Instituto Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro, sendo classificada como a melhor. Ele restabelecia o fígado do paciente para que pudesse tomar o remédio capaz de matar o cistosoma”, comentou Radinho.

Além dos trabalhos laboratoriais, Eurico Tenório era famoso em nossa cidade por realizar diversos partos. Numa época onde a iluminação pública era quase inexistente, Radinho lembra que seu pai fazia partos até no escuro, mas com a mesma precisão e eficiência. “Presenciei meu pai sair de casa para realizar o parto de uma moça da região próxima a residência do Seu Dalmário Souza e voltou de lá sem camisa. Minha mãe perguntou o porquê e ele pediu a ela para separar roupas, pois a pobreza era tão grande que nem pano tinha para enrolar o menino. Nem candieiro tinha Ed, fiz o parto no escuro!”.

Quando perguntado onde tinha se formado, Eurico Tenório respondia: “Na faculdade da vida”. Radinho comenta que os atalaienses na época não procuravam médicos, iam atrás de Eurico Tenório. “Meu pai quando morreu tinha mais de quinhentos compadres aqui em Atalaia, tanto de batizado, como de partos. Várias vezes ele andando nas ruas chegavam pessoas lhe pedindo ajuda, pois determinada mulher estava em trabalho de parto e ele sempre ia fazer o parto. Aqui tinham muitas parteiras, mas não tinham o conhecimento e nem a habilidade que ele possuía. Às vezes deixavam um pedaço da placenta e a mulher começava a ter hemorragia e chamavam Seu Eurico, que ia até a localidade e tirava esse resto de placenta”. 
  
Sobre a importância de Eurico Tenório em Atalaia, a escritora atalaiense Vandete Pacheco o descreve em seu livro como: “Houve período em que Atalaia ficou sem assistência médica, contava-se apenas com a eficiência do enfermeiro prático Eurico Tenório de Albuquerque, bastante humano, que atendia a domicilio a qualquer hora do dia ou da noite sem receber recompensa financeira.”

Em uma passagem, Radinho nos conta que o Gabriel Miranda filho do ex-vereador de Atalaia João Miranda, levou seu filho Welligton para vários médicos do Estado de Alagoas, pois a criança estava morrendo. Não obtendo resultado levou a criança à Recife, onde depois de oito dias o médico que o atendeu, não vendo melhora, pediu que o levasse à Atalaia para morrer. Gabriel Miranda disse ao médico que ele iria morrer na mão de um enfermeiro em Atalaia. Gabriel então entregou seu filho já debilitado nas mãos de Eurico Tenório: “Está aqui, trouxe ele para morrer em suas mãos”. Eurico vai com o João Miranda à cidade de Pilar comprar uma pedra de cal, pois Eurico tirava o miolo da pedra da cal para com água destilada, fazer um regulador de flora intestinal, que só anos mais tarde a SUCAN passa a distribuir com o nome de Caulim. Radinho lembra que seu pai de dez em dez minutos dava uma colher de água de cal à criança. “A criança foi regularizando a flora intestinal, meu pai aumentou a dosagem e depois de alguns dias já estava dando água de arroz já na casa do Seu João Miranda. Depois de dois meses o Gabriel levou o menino já recuperado ao Recife e o mostrou ao médico e disse que doutor era o Seu Eurico”, nos conta Radinho.

“Meu pai adquiriu esse conhecimento por ele mesmo. Quando não estava trabalhando, sempre estava lendo e assimilava muito bem tudo que lia. Era Católico, mas ele tinha um lado espiritual, tinha um dom dado por Deus. Podem perguntar aos mais antigos, quais famílias não precisaram dos serviços do meu pai. Ele atendia de manhã, de tarde, de noite e até de madrugada. A população mais carente sempre o chamava de doutor e ele sempre pedia para chamar só de Eurico”, comenta Radinho. Eurico Tenório era um homem culto, possuidor de grandes amizades. “Quando se juntava com o Professor Genário Cardoso e o Professor Agenor, lá no Bar do Seu Ecílio, todos em volta ficavam parados ouvindo suas discussões sobre as historias”.

Eurico Tenório sempre gostou de política e em Atalaia fez grandes amizades políticas, a exemplo do ex-prefeito Zeca Lopes, com o qual veio a romper laços políticos anos mais tarde. Tinha uma grande amizade com os ex-prefeitos Major José Tenório e Dr. Luiz Augusto. Foi eleito vereador de Atalaia por vários mandatos, sempre como um dos mais votados em cada eleição. Radinho conta que enquanto outros vereadores se elegiam com 80 ou 100 votos, Eurico Tenório chegava a ter 500 votos. “Antigamente não havia os acordos e artimanhas da política atual, o povo votava no favor e na palavra”. Como vereador teve atuação de destaque e uma de suas ações mais lembrada é o Requerimento feito ao então prefeito Dr. Luiz Augusto para que fosse calçada a ladeira que dar acesso ao cemitério, pois a estrada era de barro e em tempos de chuva, vários caixões embolavam pela ladeira devido a escorregões de quem os levavam. O pedido foi atendido e o calçamento foi feito. Também não esquecia a sua área de atuação e era sempre o campeão de Requerimentos para melhorias na saúde do município.

Disputou eleições como candidato a Prefeito de Atalaia, sendo derrotado em todas elas. Mas, vale destacar as eleições que perdeu para Zeca Lopes em 1966 e Luiz Vigário em 1970. E sobre essa passagem política Radinho comenta: “Perdeu a primeira eleição para o Zeca Lopes por uma diferença de 33 votos. Meu pai foi para essa disputa apoiado pelo Major José Tenório e pelo Sr. Sezedelo Medeiros Costa. Zeca Lopes já era um grande expoente político e ainda contava com o apoio da Usina Uruba, Usina Ouricuri, Luiz Augusto, o Deputado Abraão Fidelis de Moura e Luiz Vigário que era vereador. Meu pai, praticamente sozinho, perdeu a eleição por 33 votos. A derrota nunca é boa, mas isso foi motivo de alegria para todos que votaram no meu pai”. Logo em seguida ele perdeu a eleição para o Luiz Vigário que na época era apoiado por Zeca Lopes, também por uma diferença pequena de votos.

Eurico Tenório se afastou da política como candidato, mas teve a satisfação de vê seu filho Radjalma Tenório ser eleito vereador de Atalaia em 1976, com 534 votos, sendo o quarto vereador mais votado. “Um dos momentos que vi meu pai ficar triste foi quando na eleição seguinte perdi por um voto apenas e ele olhou pra mim e disse: Como é que você perde uma eleição dessa Radinho?”. Radinho lembra que na época muitos colegas votaram em outros candidatos por considerá-lo já eleito.

Sobre a convivência familiar, Radinho o descreve: “Nunca vi um pai igual o meu. Era vivedor do seu salário. Criou seus filhos numa dignidade e dedicação de ser bom pai, ser amigo e companheiro tanto nas horas boas, como nas difíceis. Ensinou-me acima de tudo uma coisa que não esquecerei nunca, ser honesto e nunca ser ingrato. Meu pai sempre teve essa virtude com ele, pois nunca quis nada de ninguém e nunca pensou em ser desonesto. Andava nas ruas de Atalaia de sandália japonesa. Meu pai tinha uma qualidade difícil de ser vista hoje em dia, pois ele nasceu para servir”. Radinho lembra que Eurico Tenório gostava de dizer que a pessoa só seria feliz, se proporcionasse a felicidade ao seu semelhante. “Meu pai não tinha maldade com ninguém. Ele tinha adversários políticos, mas não tinha inimigos. Papai foi pra mim o maior ídolo da minha vida, o maior professor, o maior amigo. Até hoje sinto muita falta dele, não choro mais, pois a vida vai calejando, mas a saudade é grande. Ele tinha seus defeitos, como todo ser humano, mas suas virtudes, repletas de bondade, de só querer fazer o bem, superava qualquer defeito”, comenta Radinho.

Eurico Tenório faleceu no dia 16 de janeiro de 1983. Radinho lembra que já debilitado pela doença, seu pai o chamou e pediu para que ele fosse enterrado em Atalaia: “Sou de São Miguel, mas quero me enterrar aqui. Atalaia é minha terra, sou atalaiense por coração, pois passei grande parte de minha vida servindo Atalaia”. 

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