Prefeito Manoel de Miranda Cabral - O Coronel Né Miranda

Edição: Phablo Monteiro - Fotos: Arquivo da Familia  Homenagem

 

Em 25 de dezembro de 1878, nascia na ainda Villa de Atalaia, Manoel de Miranda Cabral, popularmente conhecido por Né Miranda ou Coronel Né Miranda, por conta de sua influencia política.

Era filho dos atalaienses Cândido Raymundo de Miranda e Maria Cândida Cabral Medeiros, que após o casamento passou a se chamar Maria Cândida de Miranda. Seu pai foi vereador da Câmara da então de Villa de Atalaia, chegando a presidir esse Poder no ano de 1886.

Em 09 de setembro de 1908, casa-se com Antonia Lopes Ferreira, que após o casamento passa a se chamar Antonia Miranda Cabral. Ela era natural da cidade de Santa Luzia do Norte. Com Dona Tonha, Né Miranda constituiu uma grande prole de 13 filhos: Deca, Jerônimo, Hélio, Manoel de Miranda Cabral Filho, Paulo, Benedito, Rinaldo, Geraldo, Célio, Maria, Nilda, Niza e Helena. O filho que recebeu o seu mesmo nome, faleceu com apenas oito meses de idade.

O atalaiense Getúlio Pereira Leite o descreve no Jornal Folha Atalaiense, como uma “figura humana excelente, respeitado e respeitador, magro, alto, elegante, inteligente, honesto, caridoso, enfim, um cidadão de bem”.

Morava em um casarão de alpendre situado na Rua Marechal Deodoro, onde até o final de 2017 se conservava, mesmo que de forma precária, a sua fachada. O casarão ficava quase em frente ao Cine Fênix do também saudoso atalaiense Pedro Lopes. Mas, apesar da proximidade, Né Miranda não aderiu a principal diversão da época em Atalaia que era assistir aos filmes da Metro e da Paramount. Gostava mesmo era de um bom jogo de baralho, onde em sua residência reunia inúmeros amigos, a exemplo de Seu Agamenon, Manoel Ormindo, Major Moço e tantos outros, para disputadas partidas.

“O conheci já aposentado no inicio da década de 1950. Tive o privilégio de desfrutar de sua intimidade, quando eu tinha oito anos de idade. Era muito amigo de meu pai, José Leite de Oliveira e era meu padrinho. Tive acesso a seu enorme quintal onde tinha uma pequena plantação de cana-de-açúcar caiana e manteiga. Jamais esquecerei os dias de São João em sua residência. Fazia uma enorme fogueira e presenteava os meninos com fogos e brincadeiras juninas”, destacou Getúlio Leite, na edição de número 24, do Ano IV, do Jornal Folha Atalaiense.

Sem sombras de dúvidas, Manoel de Miranda Cabral foi uma das personalidades de maior destaque da sociedade atalaiense na primeira metade do século XX.

O dentista, professor e advogado Wild Silva assim o descrevia: “Usando sempre palitó, sandália e chapéu de massa, passava todas as manhãs em frente a casa onde morávamos, em direção ao cartório de Seu Leite. A marcha era vagarosa e as mãos sempre pra trás. Era mais de ouvir, mas quando falava só exprimia a verdade, sem subterfúgios. Assim como o cartório do Seu Leite era o ponto para as primeiras prosas do dia, a mercearia de seu filho Jerônimo, construída nos domínios de sua residência, era o segundo ponto, um pouco mais tarde, para as “perigosas” prosas políticas locais”.

Foi Escrivão e posteriormente Coletor Federal de Impostos na cidade de Atalaia. Foi político de grande destaque no município.

Em outubro de 1914, foi um dos indicados pelo Partido Conservador, que tinha como um dos principais lideres em Alagoas, o Barão José Miguel de Vasconcellos, para disputar uma vaga de deputado estadual, na eleição de 1º novembro daquele ano. Não logrou êxito.

Manoel de Miranda Cabral fez parte da Junta Governativa do município de Atalaia, nomeado pelo então Governador do Estado de Alagoas, João Baptista Acioli Junior, no dia seis de dezembro de 1916, tendo em vista a renúncia do Intendente, Vice-Intendente e de todo Conselho Municipal da época.

Em 11 de fevereiro de 1917 Manoel de Miranda disputou as eleições para o preenchimento das vagas acima citadas, sendo eleito como Conselheiro Municipal, com 214 votos. Seu mandato foi de 16 de fevereiro de 1917 à 7 de janeiro de 1919.

Disputou as eleições de 1924 concorrendo ao cargo de Sub-Prefeito do município de Atalaia, tendo como candidato a Prefeito seu amigo Ernesto Lopes de Vasconcellos. Candidatos únicos, como era o costume da época, obtiveram cada 323 votos, sendo eleitos para o mandato de 07 de janeiro de 1925 à 07 de janeiro de 1928.

Sua amizade com o ex-prefeito Ernesto Lopes se evidencia ser de longas datas, visto que eram sócios na Escola Musical Atalaiense, fundada 01 de janeiro de 1911.

Em 1927 disputou as eleições para o cargo de Prefeito, tendo como candidato a Sub-Prefeito o dono do engenho Bom Sucesso, o senhor Porfírio Lopes Ferreira Filho, obtendo ambos 255 votos, sendo eleitos para o triênio de 07 de janeiro de 1928 à 07 de janeiro de 1931.

Em relatórios apresentados ao Governo do Estado, podemos notar que sua experiência na Coletoria Federal fez dele um gestor que soube equilibrar as finanças públicas, com um poder de arrecadação maior do que a expectativa orçamentária e sempre mantendo as despesas a baixo do valor arrecadado, não comprometendo os cofres públicos e sempre tendo dinheiro em caixa para importantes obras. “A exemplo dos meus antecessores, reverti em beneficio da municipalidade, os subsídios que lhe cabiam”, destaca Né Miranda em seu relatório.

Com uma receita e despesa orçada em 32:000$000 para o exercício de 1928, conseguiu, entretanto, arrecadar 38:890$300, ou seja, 6:890$300, além da importância prevista.

Realizou em 1928 os seguintes melhoramentos para Atalaia: 1:617$700 para a construção de 2,650 km de estrada de rodagem partindo do Povoado Boca da Mata de Fora até o Sitio Pedra da Cruz; 642$300 para a construção e alargamento da estrada de rodagem que parte de Sapé até o povoado Bôa Vista e a esta cidade, chegando à praça Barão José Miguel; 3:470$$100 para beneficiamento de 7,800 km de estrada de rodagem, no trecho desta cidade ao Povoado Branca; 1:217$800 para remodelação do calçamento da ponte sobre o riacho Tamanco, com extensão de 470 m²; 536$300 para a construção de uma bueira na rua onde se estende o aludido calçamento; 210$00 para a construção de 210 m² de calçamento na Praça Barão José Miguel; 127$400 para serviços executados na ladeira que conduz à cidade alta; 460$000 para serviços de conservação da ponte sobre o rio Paraíba; 30$000 para uma nova instalação elétrica e serviços de conservação no matadouro público; 7:128$000 para iluminação pública; 1:413$900 com limpeza pública.

Também pagou o déficit de 7:450$945, previsto no balancete do ano de 1928, consequencia dos gastos extraordinários com a construção do grande lastro da ponte sobre o rio Paraíba.

Segundo seu relatório, o saldo de 4:851$544 foi reservado para uma importante obra que era a construção da ponte sobre o Rio Porangaba, “cujas vantagens eram tão ou mais importantes do que a ponte sobre o Rio Paraíba, pois na região do Vale do Porangaba, era mais intensa a industria açucareira na região”, destaca.

Em relatório apresentado ao Governador de Alagoas em de 08 de janeiro de 1929, o então prefeito Manoel Miranda Cabral destaca ter "convicção de haver bem aplicado as rendas municipais, abrindo estradas e conservando as existentes, construindo calçadas e bueiras, drenando riachos, remodelando a instalação”.

Com uma receita e despesa municipal orçada em 32:780$320 para o ano de 1929, o prefeito conseguiu arrecadar até o dia 10 de dezembro, 37:862$320, verificando, consequentemente, um superávit de 5:082$320.

Neste ano, fez grandes melhorias na estrutura do prédio onde funcionava a Prefeitura, na Rua da Matriz, com compra de mobiliário e melhorias em sua instalação elétrica.

Realizou em 1929 os seguintes melhoramentos para Atalaia: 1:253$350 reparos do mercado público; 292$000 concerto do lastro da ponte sobre o Rio Paraíba; 475$000 na construção e conservação da estrada de rodagem do engenho Bôa Vista até a Chã do mesmo, inclusive com a colocação de bueiros de alvenaria; 232$000 na construção da estrada de rodagem do Engenho Santa Cruz até a fazenda São Lourenço, onde se faz a ligação com a estrada que vem da Estrada Branca; 4:666$500 da estrada que liga o engenho Lages a encontrar os limites do município de Capela, na ladeira “Preguiça”. 1:828$000 construção da estrada de rodagem da Baixa, onde se atravessa a estrada de ferro, n o engenho Torneiro até encontrar a estrada tronco de Palmeira dos Índios, nas imediações do Povoado Boca da Mata; 287$400 foram empregados em serviços de conservação das ladeiras que se destinam à cidade Alta, Burarema e Alto do Cemitério; 180$00 na conservação da estrada de Sapé a Atalaia; 3:502$100 conservação e alargamento da estrada de rodagem de Atalaia ao Povoado Branca; 1:736$280 com meio fio e calçamento da praça da Conceição e parte da Rua Floriano Peixoto; 298$200 com meio fio e nivelamento das Ruas 3 de setembro e 7 de Setembro e também na da Estação. O relatório também aponta concertos no cemitério, limpeza pública, iluminação pública, entre outras obras.

Neste mesmo relatório, o prefeito declarou que “não foi possível construir a ponte sobre o rio Porangaba, melhoramento de que muito se recente o município, porque tive necessidade de voltar as minhas vistas para melhoramentos mais urgentes”. O prefeito encerrava seu relatório informando que “prometo, entretanto, fazê-lo no corrente exercício, já dispondo, para dar inicio aos respectivos trabalhos, da quantia de 4:678$887”.

Manoel Miranda Cabral não chegou a cumprir integralmente o seu mandato, pois com a consumação da Revolução de novembro de 1930, Getúlio Vargas dissolveu os Legislativos do Brasil e afastou os governantes dos Estados e dos Municípios, sendo estes substituídos por Interventores.

E, em novembro de 1930, Né Miranda deixava seu cargo de Prefeito e assumia como Prefeito Interventor de Atalaia, o Sr. Melchiades Rocha, nomeado pelo Interventor Estadual Hermilo de Freitas Melro.

Seguindo seu exemplo, dois dos seus cinco irmãos, exerceram a política em Atalaia: Cícero de Miranda Cabral e José de Miranda Cabral. Ambos sendo eleitos para o Conselho Municipal. Manoel de Miranda Cabral é tio do ex-vereador de Atalaia João Miranda de Oliveira, filho de sua irmã mais nova, a senhora Amália de Miranda. É avó do artista plástico, autodidata, pesquisador, colecionador e marchand, Jerônimo Miranda.

Faleceu no dia 09 de Março de 1959, na sua cidade natal de Atalaia.

Em sessão da Câmara Municipal, do dia 12 de março de 1959, usando da palavra, o Vereador Arnobio de Melo Costa requereu um voto de condolências pelo falecimento do ex-prefeito: “Requeiro com a ouvida da Casa um voto de condolências pelo inoportuno falecimento do nosso inesquecível conterrâneo Manoel de Miranda Cabral, expressão de homem público que soube amar a sua terra natal, onde exerceu as altas funções de Prefeito deste Município, escrivão federal e vindo a falecer já aposentado como Coletor Federal”.

Já na sessão de 19 de março de 1959, o vereador Manoel de Medeiros Salgado prestou a seguinte homenagem: “Um personagem ilustre que tantos relevantes serviços prestou a essa municipalidade, cuja tradição familiar descende de uma das mais proeminentes famílias Atalaienses a quem sempre lhe concedeu grande admiração e todo respeito”.

Em sua homenagem foi colocado seu nome em uma Rua do bairro Girador, onde está situado um Posto de Atendimento do Ministério do Trabalho e várias residências.

 

Né Miranda e seu filho Rinaldo em Maceió

Fachada do casarão onde residiu, na Rua Marechal Deodoro

Fonte de Pesquisa: Biblioteca Nacional, Livro Atalaia Último Reduto dos Palmarinos, da escritora Vandete Pacheco, Câmara Municipal de Atalaia e Jornal Folha Atalaiense.

 

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